Terça-feira, 18.10.11

Algo que sempre me causou incompreensão e repudio é a devolução de crianças aos centros de acolhimento. Segundo o Correio da Manhã online, entre 2005 e 2010, foram devolvidas aos centros de acolhimento do Estado 108 crianças em processo de pré-adopção e, só o ano passado, foram 12. Para Luís Villas Boas, director do Refúgio Aboim Ascensão, o elevado número de crianças devolvidas pelas famílias adoptantes resulta da "má avaliação" dos candidatos. "As instituições têm de ter capacidade para preparar estas crianças para uma futura integração numa família e, para isso, é preciso ter técnicas de várias áreas. Não é isso que se passa", diz.

Julgo que foi à dois anos que, num qualquer programa de televisão matinal, assisti à discussão e denúncia da devolução de três irmãos (ou duas, não me recordo ao certo) à instituição de acolhimento porque uma das crianças não se adaptou ao cão da família. Fui algo que me marcou e me fez perguntar que raio de país era este que permitia criar ilusões, esperanças e expectativas de amor, carinho e protecção nos meninos e meninas sobre a nova família. Como é possível que crianças sejam devolvidas apenas porque não correspondem àquilo que supostos papás e mamas esperam daquelas crianças... Não é por serem crianças abandonadas e em busca de família, que deixam de ser crianças e tornam-se naquilo que eles desejam. Como qualquer criança, portam-se mal e têm defeitos. Ou será que estes papas e mamas pensam que um filho biológico também é feito à imagem e semelhança daquilo que esperam deles só porque não é adoptado? Julgaram eles que, tal como um brinquedo, um automóvel ou um computador com avaria, uma criança também pode ser devolvida sem consequências para elas e o seu futuro?

Teria uns doze anos quando a minha mãe decidiu acolher, como família de acolhimento, uma criança da família, rejeitada pelos pais biológicos, cujo o destino mais certo seria um destes centros de acolhimento do Estado. Apesar de todas as dificuldades e críticas que enfrentou, apesar dos gastos de saúde avultados que teve e das noites mal dormidas, criou-a com o mesmo amor e carinho que tinha e têm pelos filhos biológicos. Criou-nos como irmãos e como irmãos nos olhamos e tratamos. Nunca, em tempo algum, pensou em devolve-la. Hoje é uma criança forte e teimosa mas, sobretudo, amadas por todos. Não deixa de ser chata e de me levar ao limite da minha paciência quando é desorganizada, mas é a minha irmãzinha e aí de quem se atreva a dizer o contrário... E, um dia, tal como a minha mãe fez, para além de um filho biológico pretendo adoptar ou acolher outra criança, amando e protegendo ambas de igual modo.



publicado por a menina das bolhas de sabão às 09:31 | link do post | comentar | partilhar

Quarta-feira, 12.10.11

Afinal enganei-me, começando hoje a ganhar forma um desejo de menina: fazer voluntariado.

Hoje, pouco depois de ter publicado o post anterior, recebi a chamada de um elemento da bolsa de voluntariado da cidade onde estudo; e, ao início da tarde, lá fui eu para entrevista. Contrariamente ao que imaginava, a bolsa de voluntariado desta cidade conta com mais de mil inscritos e, aproximadamente, cinquenta instituições disponíveis para os recebe-los. Jamais conseguiria calcular que existissem tantas instituições dispostas a receber voluntários, nem tantas pessoas interessadas em dispensar o seu tempo em prol dos outros.

Quando era miúda, achava piada ao facto de a maioria (se não, todos) dos bombeiros da minha vila, no Minho (sou estudante de fora, como costumo dizer visto que esta não é a minha cidade nem a minha terra) serem voluntários e queria ser como eles. Em tempos, enquanto estudante do ensino secundário, eu e uma amiga estivemos prestes a inscrever-nos bombeiros voluntários da cidade. Mas, por sermos dos arredores e serem escassos os transportes, ambas trabalharmos no verão e ter-mos entrado em pânico com a ideia sermos obrigadas a andar no meio dos acidentes de trânsito, entre feridos, sangues e mortos (ainda hoje, não sabemos se esta ideia era infundada ou não) acabamos por desistir da ideia. Na verdade, se hoje tenho este bichinho do voluntariado dentro de mim, devo-o aos bombeiros voluntários - que sempre exerceram um poder enorme de atracção e de orgulho, de louvor e respeito pelos trabalhos heróicos que realizam.

Durante a licenciatura, mantive o desejo de fazer voluntariado mas, o receio de não conseguir conciliar ambas as coisas, fez-me perder o ânimo. O facto de, nos últimos dias, me sentir sozinha e esquecida e o excesso de tempo livre que o mestrado me permiti, fez-me reavivar aquele bichinho que ficou. Apesar de fazer voluntariado numa instituição da minha área de formação, a verdade é que não me sinto realizada nem o consigo olhar como um voluntariado, mas sim como um passatempo e forma de conhecer a área em que me licenciei.

Dentro em breve, serei novamente contactada para confirmar se quero mesmo fazer voluntariado junto de crianças doentes. Apesar da vontade ser grande, o medo de olhar para aqueles meninos e meninas doentes é, inevitavelmente, maior - sobretudo, porque se trata de um compromisso de um ano... porque, se há coisa que mais me revolte é o sofrimento destas pequenas crianças.

Lanço a pergunta, ao qual gostava de obter testemunhos:


Alguém já fez voluntariado com crinças internadas? 




publicado por a menina das bolhas de sabão às 17:07 | link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

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